domingo, 16 de outubro de 2011

São Paulo - Fotografia XI

Pinga,
Pinga,
Pinga
como se fosse remédio.
Em alguma folha, a chuva adormece.

domingo, 9 de outubro de 2011

Ele desconhecia seu equinócio

Durante o jantar, sem outra forma de conceber a saciedade, ele curiosiou na existência dela. Cheio de aforismos, não hesitou em colecionar palavras! Desenhava-as mentalmente no corpo dela.
Ali, no entorno da cintura - onde um tanto torta, em posição de quem busca o que já foi, o vento atravessa em calmaria -pintaria idioma. Nos pés contemplaria cada letra: a l e n t o. Se somente os pés dela o quisessem, bastariam eles, para caminhar até aquela sala de jantar e, simplesmente, não haveria outra saída.
Esboçaria presságio nos seios.  Afogamento nas costas, em todo o comprimento, que nunca pôde sentir quente nem em dias de vestido ou em ondas de praia.
Nas pernas distribuiria muitos jardins, reproduziria diversas vezes jardins, minusculamente, de caneta vermelha. Borraria os olhos de constantes. E nos quadris seria primavera e mais um borrado de cores, as favoritas de novembro.

E em um certo mês de outono, eles primaverão juntos.
Ele desconhecia seu traço de equinócio, contudo, ela já o investigara muito bem e ousadamente pintava o corpo dele todo de 12 horas.  


Conflito privado

Foi caso diurno
com um tanto de escuridão.
Uma formiga,
das que contrabandeiam açúcar
e que de tantas pernas longas
encena um balé inteiro
de versões,
deslizava
v
   e
        r
           t
        i
    c
  a
 l
m
e
n
t
e
no banheiro.

Sem nenhum pudor,
foi arremessada no chão molhado.
Agora a descriatura era
vômito do próprio corpo:
pressuposto de qualquer sadismo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Rima do meu desejo

Se a paisagem que vejo

É a mesma que você também avista,

Por que ela não brota de mim

A qualquer hora do dia?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Eclipse de qualquer ano

Era de conhecimento de todos o programado eclipse de 1989.
(Como se não fosse ainda mais irônico prever o universo)

Para ele, Leonardo, de 7 anos, era tão difícil acordar cedo, levantar e encostar meias e pés no chão e cortar o sonho em alguma imagem que não se completaria com mais nenhuma. Entretanto, agora, já quase meio-dia, esperava ansiosamente pela mãe. Ele sabia: era hora do almoço e mais: fim da aula.
O almoço era sempre uma espécie de até mais ver: ele, seguindo os passos da rotina, sentava-se à mesa, no cômodo pintado de amarelo.

(Com a comida posta no prato a mãe o deixou com a avó.
Era dia do eclipse solar e a mãe o abandonara.)

Leonardo ainda não sabia, mas sua concepção de eclipse seria desfeita feito o Japão e ano-que-vem que imaginara. Seu ano-que-vem era um morro recoberto de avenida ... o ano-que-vem era sempre o outro lado.

Já em 1989 para contemplar o sol desvanecer diante da lua, não usavam-se diretamente os olhos. Ainda em 1989, usavam-se filmes de até 36 poses para retirar fotografias. Era a forma de sobreviver a tal ritual unânime: a descoberta da outra cor do sol. Então, na varanda da casa, às três da tarde, todos os dois – menino e avó – tinham em mãos os negativos de fotografias para observar, sem perigos, o eclipse. Pessoas e imagens pareciam ferrugens próximas ao sol.

No momento marcado pela ciência iniciou-se o eclipse. Leonardo se deitou no chão marrom gelado, recoberto de retângulos, da varanda. Do chão via o sol e a lua e diante dele pequenos rostos. O céu escureceu em pleno dia e depois foi molhado por alguma sensação nova. Talvez por uma chuva fictícia dos dias mais intermitentes que os anos bissextos.

sábado, 1 de outubro de 2011

Degradé

Devagar o peixinho no aquário


Ia reto em sua procissão submarina.

Iludindo a vida de subágua

sob o teto do consultório cor de salmão.

.
.
.

Devagarinho surgiam as nuances de azul.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011

Festando

(Mani)
         Festando
                       ilusões
                                 nada raras
         Festando.

Construção Inédita de Niemeyer.

Quase nunca avisto os traços de Niemeyer nesta cidade. Os vestígios parecem interrompidos.
Eu também finjo que não o vejo. Finjo que não o vejo, fingindo esta ser minha mais real vontade. Ali, ele está sempre ali, atrás do meu balcão imaginário - no meu fingimento - da forma que sempre finjo não o ver: quase nu nos olhos. Lá está ele, criando outros pedaços de efeitos do mundo, em vez de criar ócios acumulativos comigo: ócios criados, ócios ativos.

É sempre dia quando finjo não o ver.
É sempre escuro quando se afasta.
Parece um pesadelo leve. Sem cortinas esvoaçantes e nuvens baixas. Sonho de onde simplesmente se acorda com um gosto novo no corpo.

Aqui do alto, ainda fingindo que não o vejo, o desperto mentalmente e ele me entende.

Eu sou fingimento visto por aquele prédio da República.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Canta a praia

Canta praia
Exatamente de onde me afugento.

Árvore

Casa

Hoje é verão:
Sal assoviando leve.

Canta a praia
Até 31 de dezembro, meu bem.
Ainda faz tempo
de distrairmos
nossas promesas com alguma vida que ainda não veio.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Passeio

Um tanto torto.
Um santo tanto.
E três cachorros.


Ainda certo disléxico.
Anda mais ou menos.
Mais ou menos certo ainda. O tanto louco
leva consigo;
O pouco são
também: inclina.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Quase setembro prosaico

É evidente que em setembro


Saiba lá Deus por que

A primavera permanece.


E ainda sabe lá Deus por que

Jardineiros trabalham com ferro

E festejam o ano novo.

Feito nossos setembros: nunca encontráveis juntos,

Mas, talvez, um tanto imaginativos singulares

Como os anos que chegam

Próximos dos Equinócios na praia.

Mas Seja lá o que for em Setembro é muito.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Meia voz rouca

Faz dias que ele não acorda bem - mesmo que haja sol – fica meio sentado à janela, esperando que algo aconteça: desfazendo-se do homem de ontem. Fred nunca permanece por muito tempo alguma coisa, porque o dia vem. Na noite anterior, por exemplo, com muito esforço, fora homem jovem, impassível e condenado. Mas logo pela manhã, ele foi perdendo corpo: detectando, gota em gota, partes dos anos, das poses, do toque, da tempestade.
Ele até já havia sido só dois. Contudo, momentaneamente, ele era um rapaz sentado à janela, esperando que algo acontecesse. Mas o acontecer é sempre externo. O acontecido em nós parece não se manifestar em nada evidente. Nem naquela dança flamenca ousada ou na noite em Zaragoza.
Porém, da vez em que esteve em longe, no outro lado do oceano, ele perdeu a chance de confessar: “Londres não é distinta de você.”

domingo, 7 de agosto de 2011

A oração da vontade

Eu conheço sobre uma mulher húngara. Ela mudou-se recentemente para um antigo edifício da Avenida Brigadeiro Luis Antônio, no centro da cidade. A europeia oriental pronuncia e entende bem o inglês, o português, além do húngaro: língua um tanto desmistificada por causa dessas tão obscuras coisas. Não teve filhos. Noivou por duas vezes e ela mesma desmanchou os dois laços. Assim, a maior companhia da estrangeira foi sua falecida mãe húngara. Com ela, preparava deliciosas receitas tradicionais daquele país amarelo.
E ambas - quando ainda unidas na vida, na meia solidão de algum apartamento de extensas janelas - gostavam de cozinhar doces. Mas o desejo pelas sobremesas era fatídico, causava angústia e discussões interiores, já que as duas mulheres dividiam além da origem, e também pela origem, a diabetes e não podiam esbanjar a existência. Contudo, nas tardes dos dias ímpares - afinal, em mês de 31 dias elas ganhavam uma tarde a mais - quando se reuniam para desfrutar de um curto pedaço de bolo e uma xícara de café amargo, sentadas uma frente à outra, quando já sentiam ainda mais vontade de comer, a mãe perguntava, não se contendo de imaginação:
- Qual é a sua vontade do bolo? Se pudesse comer mais, quanto comeria?
Na realidade, quase gritando, a mãe gostaria de dizer: Quanto comeria se não morresse?
Diante da questão tão conhecida, a filha, como sempre, abaixava o olhar até o bolo e elas ficavam por ali mais algum tempo, sem saber o que fazer com tanta vontade, em silêncio.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Resquício

Eu apenas posso
memorá-lo,
lembrá-lo,
cordá-lo
e ainda
rememorá-lo,
relembrá-lo
recordá-lo
com só um tiquinho de ação
em algum varal que amanhece.