domingo, 12 de fevereiro de 2012

Celebração

Descritas.
Ainda em diversas formas.
Amizade.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Como sentir desnudada

Enquanto a mulher seguia o mar diariamente, sentia. 
Tateava o pôr-do-sol envelhecendo a claridade.

Sendo meio da moda, aquela senhora caminhava pela praia. E, em alguma vez, ela percebeu. Inexplicavelmente, alguma de suas suposições surgia da areia, pois ele gastava o corpo ali, talvez em mais de um dia da semana, entregando-se ao vôlei.
Discretamente, de roupas claras, ela descobriu - sentada em um novo lugar - que ele jogava somente aos domingos em horas de sol. 
Seus outros dias deviam ser luas, pensava ela, que em si ao sol via a noite. Mas, agora, cheia da descoberta, as noites eram, ao menos, de primavera. 
Ela passou a frequentar o mar também, seus pés tocavam, e antecipava sua ida à praia, aos domingos, pois necessitava vê-lo. Era bom conhecer as poses inéditas que o corpo dele podia até perpetuar se quisesse, olhá-lo assim era uma espécie de cura do futuro. E, ainda era morte, pois sendo original e indolor. 
Nos 68 anos que a vida lhe permitia, ela se inaugurava dele sem mais pensar. Inquestionava. 
Porém, foi surgindo uma vontade de não ir embora, de permanecer ali. Mesmo em dias da semana, em julho, na chuva. Ela resolveu se mudar: recolheu empréstimo, a loucura da família e vendeu a antiga casa e comprou um apartamento, de um quarto e um espaço para os livros e a música, no quinto andar, de frente ao horizonte do mundo, em frente à rede dele e, assim, pôde imaginar o quanto aquele espaço podia ser ausente ao mesmo. E tudo com seu corpo tão movimentado quanto à imensidão do que há de externo. Vê-se o mar.


sábado, 21 de janeiro de 2012

Retalhos

Ela tanto sonhou, às breves, com uma nova ida. 

- Eu ia naquele outro supermercado, mas a promoção desse aqui era muito melhor, precisava garantir a carne.
- Pois eu tive a mesma idéia. O peso até vale a pena.

Ela se concentrava na conversa - espécie de novo mundo. E ali, em sua nova habitação, da qual desconhecia os aspectos exteriores, já experimentava as costas no tecido velho da bolsinha - e não era tão confortável quanto imaginava, porém, seu abrigo anterior era muito menos aconchegante: era frio, pequeno e, a todo momento, durante o dia, ela enxergava o mesmo rosto, que abria e fechava a gaveta.

A moeda viera do supermercado.

(O nascimento de uma moeda é um sistema cego. Desconhece-se. É necessário o olhar do alheio para identificar o próprio valor.)

Na bolsinha de pano vermelho brotado de crochê - em formato de passarinhos roxos, azuis e amarelos de asas abertas - as moedas, para aquecer seus corpinhos de metais, conversavam. Uma, de valor de R$ 0,50, viera do Rio de Janeiro - já até conhecera o Arpoador. Testemunhou breve momento de história de amor, quando ela desejou claramente com os olhos. Outra moeda, de também R$ 0,50, comentou como fora bem tratada por um bêbado em dia de sol. E outra, a menor das moedas, de R$ 0,05, narrou sua experiência dolorosa, onde esteve amassada, por dias, por um livro de muitas páginas. E ali, amassada, pela contra-capa, ela até se recordava de algumas palavras do romance: tratava-se das peripécias que ocorrem quando se decide viver em um telhado no Iêmen.
Mas ainda havia as histórias da vista do mundo e, às vezes, o ar de fora! 
A partir da bolsinha, na sinfonia do abrir e fechar do zíper vermelho, as moedinhas sempre encaravam novos rostos que as usurpavam para uma nova ida: a despedida da moeda é sempre a palavra e o número, o preço. E lá se iam ... E as moedas não têm morte. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Fotografia XV

Parece um impossível do mundo
(Que se abate, vezes, nos estandos)
Exatamente onde você se encontra.
Na invenção lenta
da abertura de outras necessárias trilhas.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O Velho Gigante

Um velhinho gigante se aproxima do chão.
Não é mais cego,
Não é mais surdo.
É velho.

Um velho gigante
que não assusta as crianças.
Porque seus olhos são escuros.
Preenchidos - pensam elas -
das todas distâncias,
ainda que apertadas. No gigante.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Fotografia XIV (De alguma praia de Los Angeles) - Prosa do mar

A dicção da praia
É além da beira-mar
Seja som do visto do mundo
- as histórias iguais refletidas -
Em distâncias quase inaugurais.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Haja

Que as sequências
apareçam,
se distinguam. Noturnamente
quaisquer.
Qual queres:

leve a polca sempre à frente.


sábado, 24 de dezembro de 2011

De composição

Marítimos.
Assim,
Realejo.
Ainda que calmos,
Ainda que calados.
Pois mar.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Decoração da Terra

Não seja preciso ir a lugar algum. O pricopó já está aqui dentro - quando apenas acordei em um dia de gente de Deus: houvesse uma neblina de reflexos comemorando a terra e o firmamento.
Cabia tudo levemente em mim.
Porém, nisso, a imperfeição estava em, às vezes, desejar diversos quereres concomitantes - nos é inerente o querer plural - mas nosso corpo se apetece sempre por um único querer, creia-se, coagulando-se olhos em um único porvir - creia-se.

O processo da definição da vontade era o corpo naquela precipitação prévia de doença, embutindo todos os destinos no qual poderia se coagular - tornar estátua o que principiava morte. Era essa a escolha do corpo. Por isso não era necessário contonar o mundo, todo o sangue estava em mim.

Estava no meu sangue. inclusive, as imagináveis felicidades que não conseguiria reproduzir.

E no dia de Deus, em que meu corpo me bastava como abrigo e continuação do mundo, após uma breve cãimbra sonora, meu corpo se levantou e foi à casa e observou e do alto, da varanda, todos os coágulos que firmam a Terra.

A Terra é coberta de vontades.

Verão do alto

Hoje a cidade é um calabouço raso
cheio de indistinas pessoalidades.
Pois o verão chegou
e a cidade despencou dentro das
horas quentes.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O homem que conheceu uma parte do mundo

Existem maneiras indecoráveis e sem reflexo.

Nele perpetuava-se um certo medo de perder os movimentos - também há de se contemplar o pavor da chuva que descai pelo mundo. para sempre - prudente seria, certas vezes, desentir e contagiar-se de todas as possibilidades do corpo, mas aqui não há prudências.

No acometimento do qualquer dia, para manter-se diversas vezes paralisado, de centenas de outras maneiras, ele passou a ser incapaz de reproduzir um mesmo sentimento. Os problemas desse propenso ineditismo eram inúmeros. Ele já sabia como amar pai e mãe - porque só havia um - mas não descobria como sentir toda a gente que restava no mundo e como amar um brinquedo novo de um jeito diferente do antigo.  Sequer era possível agrupar pessoas na memória, pois, definitivamente, nada existia que as assemelhasse.

Clandestinamente, a vida apresentava outras saídas.

Ele estava sentindo, então, cada vez mais de maneiras racionais: amou a primeira mulher com toda a realidade, e ainda  a primeira mulher com agradecimento, e depois a primeira mulher com amor, e seguidamente a primeira mulher como quadro, e posteriormente a primeira mulher como brinde e assim a primeira mulher como janela - foi de junções a comparações, assim era o seu amor. Da mesma forma sentiu os livros, as floriculturas, os perfumes, as calçadas, os telefones, as divindades ...

Chegou, enfim, o momento em que não pôde mais perceber-se de forma reprisada. Integrava-se ao mundo do eterno paralisamento, onde o sentir suprime o corpo: era necessário interromper-se e enlouquecer definitivamente.


Homem descoberto

Às 5 da tarde
e ele ainda era poético.
Calçou-se além dos outros homens.
Cheio de voz,
cheio de de repentes,
Repleto de esconderijo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Correção de Viagem

Em Amsterdam não se deve deixar recado
e nem fazer passeios duradouros de dia inteiro.

Não se deve conhecer o chão e as paredes
nem os passos frescos de quem olha.

Aconselho àqueles
- os aqueles que quiserem - que se sentirem confortados -
- em Amsterdam - onde somente acontece -
que magiquem a previsão do tempo
e criem sua própria temperatura.

AQUI MOLDA

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Dos Prédios




Outros são bonitos. Os prédios
decerto são quase caligrafias.

Os homens que constroem os edifícios
e eles não têm medo:
do corpo,
do silêncio sem expediente,
de avistar o sol se pôr
à altura em que ele não é mais de ninguém.

Os prédios sempre presos,
Sempre olhando sempre a mesma imagem.

Foto: Sebastião Salgado

domingo, 6 de novembro de 2011

Saudade pela manhã

Desmuiçada estava a manhã em miúdas dores.
Eu me disfarçando
de incolor:
Invisível nas fotografias,
nas posições misturadas.
Em qualquer objeto
me recostava,
cantava algo de mim, quase fechava os olhos.
Parece que a noite nunca passa.