sábado, 7 de julho de 2012

Frescor

Com a comida entre a boca e os dentes - soprou-lhe uma sensação: ser esposa. Via-se num quarto de luz acesa, com as janelas abertas. 
Janelas transmissoras do vento, que terminava por tomar alguma parte dela: esposa onde o vento varre as suas partes.

Imaginando-se esposa só, apreciando - tal como janeiro - a dimensão das paredes brancas, o eco que ali cabia, o descanso de uma noite.

E mulher que sabe que há quem, outro, que dela aguarda o que dela - ela deixa fugir, no vento. 

Era o melhor dos gostos rápidos.

sábado, 30 de junho de 2012

Marinho

Amanheceu marejado. Estivera, em sonho, no oceano.

Nele, porém, o vestígio deste sonho permanece, sentia até que alguma parte sua - sem inchaço ou dores – salgava. Ele – tão conhecido, dito e sabido bruto – sonhou pela primeira vez com o oceano e que lá esteve a acalmar transatlânticos, a caminhar os olhos aos navios que soavam tristezas, doloridos de aportar na terra.

Martin não transmitia, não permitia sensibilidades, mas o oceano o arrebatou. A água infiltrara-se nele como se nunca houvesse sentido sede. E o mar que em si nascia não o autorizava a seguir o mesmo. Ele - que jamais distinguira a temperatura do café, que jamais arquivara suas fotografias em álbuns e de quem não se reconhecera registro de que pronunciasse mais de dois adjetivos em uma mesma conversa - este homem, agora, após o espasmo do seu sonho, percebeu o oceano em suas mãos: as águas despencando ou nas candeias a refletir seus traços, nunca vistos tão perto, tão calmos.

Às vezes, detinha-se sentado, a imitar o mar, reconhecendo as movimentações internas – até então invistas. Martin, então, ofereceu oferendas – em segredo – à Iemanjá. Tornou-se devoto de sua própria mudança. Seus novos hábitos prosperavam! Sua casa solitária se espantava. Ele não escondia mais, havia permissão para todos os lados de si: apegou-se às mãos, passou a escrever com os dedos canhotos. Seu corpo desmanchou a ideia de que é noite antes de dia e dia depois de noite – era o oceano no momento de dormir, era água.

Agora ele está água.

Transparente a quaisquer dos olhos.

domingo, 24 de junho de 2012

Lento

Vi-me. Impossível
de refletir na contemporaneidade.
Na metrópole.
Nos corredores. em horário de pico,
é impossível refletir sobre os ainda corredores 
e algo mais que se veja, que se queira.
Congestionam-se, dentro de mim -
talvez pela vida inteira -
pensamentos.

sábado, 16 de junho de 2012

O rabisco

Era belo - à letra de mão - o nome dela. Belíssimo ainda mais seria se vindo nome fosse dos dedos dela, pensou. 
Era uma experiência - que ela ficou a vigiar: 
o rabisco: 
aquelas letras que diziam outra mulher, que significavam existência - melhor que fotografias e segredos, porque as letras causam voz - era,assim, possível falá-la a tudo que escuta. 

O rabisco 
de formas azuis, 
que molhado, 
derrete. Feito as peças que desabam do corpo da vigia, temerosa de encontrar ainda outras palavras que reflitam ainda mais de dentro - mais que o nome dela.    


domingo, 10 de junho de 2012

Canto de todas as partes

A voz atando palavras para compor seu canto - estando, assim, à procura do soado do mundo - palavras de todas as línguas, que de obra-prima despertassem um coro humano de "nossas".

- Nossas. 

Exclamação arranhando tudo o que há de humano - dinamites, castelos, carros, coleções, pessoas - criando fincas para o canto.
 

Um canto transnacional.
 

domingo, 3 de junho de 2012

Cotidiano


O dia feito peça,

à imagem do origami:

Dobre-o nos verdadeiros anseios

- dorminhocos ao fim da tarde,

exaustos.

domingo, 27 de maio de 2012

Fotografia Individual

Que eu fosse de outro lugar.
Desses, poucos,

Lugares.

Sendo menos pouco
Do que estes lugares raros.
Seria o ineditismo 
que nunca se inaugura.






Os corpos da eterna meia-noite

Incometiam em outras horas. 

Era - diante deles - sempre meia-noite naquele meio-dia.
Viam a meia-noite dos olhos - em sol pleno. Aí: seus corpos só sabiam se tatear à busca da noite azul que se encobre, se instalando indefinida.
E já em falso temor do amanhecer - com o real pavor de que florescesse a luz, que o real despertasse - eles desperdiçavam olhares de não mais caber naquele beco. Atreviam palavras originais - palavras de noite e de aurora - para desmemorar o fim.
E depois -  já quietos -  abalavam-se no mesmo ritmo, similares: corpos: dois corpos. 
Corpos que liberavam imensidão, feito o topo do precipício.
E cansados jamais solicitavam a aurora, a claridade ofuscava os olhos já tendenciosos ao par. 




  

sábado, 26 de maio de 2012

Iscas

Horas,
incontáveis horas.
De serem iscas
daquelas perpétuas vontades
sem relógio, sem momento. (sem paz)

Que Deus acolha a falta de ironia destas palavras.

domingo, 13 de maio de 2012

O Regente




Seus braços se moviam quase submarinos, além da superfície dos homens.

Os braços diziam: "Leve-os, leve-os todos à barca e os joguem." E o homem nos conduzia: da cidade à areia - da areia ao mar - do mar ao fundo.
A barca era ele: o homem dono dos braços - que também se afogava, submerso.

Nós, em pouca multidão, distinguíamos o encantar da sinfonia - que ensaiava pelos ombros, pêlos, terno, dedos direitos e canhotos daquele homem. Um homem de braços e outros membros que regia as fantasias de nós.

Seguimos.
Onde quer que seus braços apontassem, para lá também sentíamos. E sentíamos um cada vez maior. E acima de nós, o mundo já pesava.
Era o fundo: distrito caudaloso.

Estávamos no abismo da força daqueles sons - enquanto nada houvesse, se era tudo. Era a execução da orquestra!

sábado, 5 de maio de 2012

Do sentir incorreto

Independe da fase. Do trabalho.
Independe das horas. Da tarde.
Das quantas tosses. Independe.
das contribuições tributárias.
Independe das posições. Do recôncavo.
E de principal
Independe do que o corpo não sabe fazer sozinho. 

domingo, 29 de abril de 2012

Urgentemente humano e diário

Gustav Mahler


A quarta-feira gesticulou sinfônica: abrindo as cores. 

Mas a vontade desta quarta-feira era urgente, cheia de figas: era reconhecer o dia como uma espécie diferente da sua. 

No distrito em que os sete dias da semana se enfileiram, cada um assume forma díspar - para amanhecer o mundo de diversas maneiras, sempre brotando ineditismos - diga-se que os dias também dispõem de livre arbítrio. 

À quarta-feira, assim, restou o disfarce: não permitiu acontecimentos memoráveis, que não pronunciassem seu nome em telejornais! A ideia era ser quarta-feira assoviando durante vinte e quatro horas - assim desapercebida. E cheia de pisos leves, no brotar da quinta-feira, escondeu-se diante das letras de um outdoor. E de lá foi descobrir o mundo dos outros dias.

Quietinha, a quarta-feira foi se apequenando, tentando ser outra coisa: talismã, ventura ou objeto tangente - algo que rolasse sobre a terra. Mas embevecida, à quase luz da noite, ela testemunhou o nascer do dias dos homens. Em salão majestoso, os contou - que poucos - desvendavam todas as coisas, em partes abriam os homens, em partes transladavam os horários e as ordens internas. Desfaziam. Eram os homens orquestrando qualquer superfície, homens que gesticulavam sinfônicos, em partes, em instrumentos. 

Homens díspares que criavam.

Era o belo,

o mais belo

de qualquer homem ou dia.  









domingo, 22 de abril de 2012

Antecipamentos de novembro

Te vario
assim:
diante do céu
e como hei de escapar de fugir deste infinito?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Daquela Noite

Ah,
de ti que ontem eras
Corpo de Mulher.

Corpo de Mulher que parece
estrada.

Estrada branca durante a noite,
Dicionário de Todo o Sentimento.
És caminho por onde se rimas as quietudes.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Esvaziamento

O café-da-manhã estava à mesa, a mesa de breve tom alaranjado. Era como se escoasse continuamente um pedaço dele. Da fome que ele não sentia.
Ele permaneceu na cadeira a vazar: suas invontades infiltrando externamente em seu corpo. Recomendaram que ele estivesse nesta falsa enfermidade por alguns dias. Na exata posição de partida - os olhos rebentos de lugar definido.
De si escoavam pormenores e, pelo cheiro era possível identificar que, dentro dele, havia um outro nome, as denominações outras de outros. E quando desconfiado deste interno, se angustiou com a falta dele mesmo e decidiu se desencher, furar-se e e recobrar-se seu.
Ao longo dos dias, sua cozinha foi somando líquidos e, concomitantemente, uma crosta se fixava em sua face, em seus braços, sem suas pernas, tornando-se irreconhecível. Era um novo rosto, um novo corpo, ainda que menos atraente, ainda que indefinidamente mais magro, quase de uma espécie inútil. Mas já estava próprio. para incrementar-se das idéias e sutilezas suas. Ele não era mais sociedade.