sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Pessoa-s
Cada pessoa
conhece outra pessoa.
Que tem jeitos,
síndromes,
maneiras de mastigar e de abrir os olhos,
devaneios,
mãos ou não.
Cada outra pessoa
guarda em si outro alguém.
Que deseja outros jeitos,
novo corpo,
reais devaneios,
e mãos que sirvam para marcar caminhos.
domingo, 2 de setembro de 2012
Ilusões Voluntárias
Adiante,
de dentro para mim - diante.
Uma espécie de onda,
que sempre resta fresca -
que sai de mim, à frente.
Do meu interno
- oceano quente -
parte a onda sem marola,
espumada,
brindando junto à areia:
liberta daqueles meus anseios irrealizáveis!
de dentro para mim - diante.
Uma espécie de onda,
que sempre resta fresca -
que sai de mim, à frente.
Do meu interno
- oceano quente -
parte a onda sem marola,
espumada,
brindando junto à areia:
liberta daqueles meus anseios irrealizáveis!
sábado, 25 de agosto de 2012
A Lua do Dia
A Lua e mais três estrelas
me seguem -
não fogem dos meus olhos,
descaradas.
Apontam para o teto de meu corpo.
E ao amanhecer,
utopiam o dia,
brincando de minhas sombras.
sábado, 18 de agosto de 2012
As pedras e o amor
À Fernanda Simões Lopes
As pedras,
é possível uni-las, as pedrinhas, em um monte.
O amor não.
O amor que tem
suas cores subterrâneo ou
destino
(como as pedras)
mas que não se une por vontade alheia,
às mãos dos homens,
o amor é leve a estas rédeas.
domingo, 12 de agosto de 2012
Palavras Individuais
- Jasmins, jardins, jabutis.
Ela recitava rimas.
Palavras de rimas que deveriam crescer nela:
- Silêncio, beco, dentro.
(Ainda que o cultivado silêncio partisse em fala.)
- Dito, indefinido, improvável.
- Vento, varre, catavento.
- De, mim, para, (qual), fim?
sábado, 4 de agosto de 2012
Poema
Poema é desperdício,
onda de palavra interrompendo palavra,
de tanto.
Poemas apagam.
Poemas são feitos para extinção,
pois únicos.
domingo, 29 de julho de 2012
Indiferença às coisas
Das coisas que se joga fora - que utilidade têm?
Se não há transfusão dos sentimentos
E os objetos já nascem mortos.
Se caem e não (se) ferem.
Se o que nos resta de mais importante nas mãos
são os dedos?
Se não há transfusão dos sentimentos
E os objetos já nascem mortos.
Se caem e não (se) ferem.
Se o que nos resta de mais importante nas mãos
são os dedos?
domingo, 22 de julho de 2012
Despertar
"Já amanheceram os seus dedos ao som do piano." - era suspendendo os silêncios que recebíamos as auroras.
Ao nascer, definitiva, a manhã, ele retorna - exausto das grandes composições e dos sentimentos intensos e sem finitude - à procura do restante sonho, onde eu - sei - estive, e da realidade: em que meu corpo compreende toda a temperatura necessária e os olhos fechados.
Ali, em pensamento, aguardando seus passos subirem as escadas, fingindo inédito, firmo a ideia de que as auroras o celebram tanto quanto eu: são as luzes do sol.
Mapa - talvez de uma certa saudade
As ruas permanecem
sempre,
Nos mesmos lugares,
Pilotando gente.
A gente, às vezes,
permanece, sempre,
Em um mesmo endereço.
Contando as mesmas
Chuvas e portas.
Bem crendo na previsibilidade.
Porém, ainda resta
gente, que conhece
os diversos
itinerários,
Mas que, também, às
vezes, para, estático.
(Diante daquela mesma porta
sem saída)
sábado, 7 de julho de 2012
Frescor
Com a comida entre a boca e os dentes - soprou-lhe uma sensação: ser esposa. Via-se num quarto de luz acesa, com as janelas abertas.
Janelas transmissoras do vento, que terminava por tomar alguma parte dela: esposa onde o vento varre as suas partes.
Imaginando-se esposa só, apreciando - tal como janeiro - a dimensão das paredes brancas, o eco que ali cabia, o descanso de uma noite.
E mulher que sabe que há quem, outro, que dela aguarda o que dela - ela deixa fugir, no vento.
Era o melhor dos gostos rápidos.
sábado, 30 de junho de 2012
Marinho
Amanheceu marejado. Estivera, em sonho, no
oceano.
Nele, porém, o vestígio deste sonho permanece,
sentia até que alguma parte sua - sem inchaço ou dores – salgava. Ele – tão
conhecido, dito e sabido bruto – sonhou pela primeira vez com o oceano e que lá
esteve a acalmar transatlânticos, a caminhar os olhos aos navios que soavam
tristezas, doloridos de aportar na terra.
Martin não transmitia, não permitia
sensibilidades, mas o oceano o arrebatou. A água infiltrara-se nele como se
nunca houvesse sentido sede. E o mar que em si nascia não o autorizava a seguir
o mesmo. Ele - que jamais distinguira a temperatura do café, que jamais
arquivara suas fotografias em álbuns e de quem não se reconhecera registro de
que pronunciasse mais de dois adjetivos em uma mesma conversa - este homem,
agora, após o espasmo do seu sonho, percebeu o oceano em suas mãos: as águas
despencando ou nas candeias a refletir seus traços, nunca vistos tão perto, tão
calmos.
Às vezes, detinha-se sentado, a imitar o mar,
reconhecendo as movimentações internas – até então invistas. Martin, então,
ofereceu oferendas – em segredo – à Iemanjá. Tornou-se devoto de sua própria
mudança. Seus novos hábitos prosperavam! Sua casa solitária se espantava. Ele
não escondia mais, havia permissão para todos os lados de si: apegou-se às
mãos, passou a escrever com os dedos canhotos. Seu corpo desmanchou a ideia de
que é noite antes de dia e dia depois de noite – era o oceano no momento de
dormir, era água.
Agora ele está água.
Transparente a quaisquer dos olhos.
domingo, 24 de junho de 2012
Lento
Vi-me. Impossível
de refletir na contemporaneidade.
Na metrópole.
Nos corredores. em horário de pico,
é impossível refletir sobre os ainda corredores
e algo mais que se veja, que se queira.
Congestionam-se, dentro de mim -
talvez pela vida inteira -
pensamentos.
sábado, 16 de junho de 2012
O rabisco
Era belo - à letra de mão - o nome dela. Belíssimo ainda mais seria se vindo nome fosse dos dedos dela, pensou.
Era uma experiência - que ela ficou a vigiar:
o rabisco:
aquelas letras que diziam outra mulher, que significavam existência - melhor que fotografias e segredos, porque as letras causam voz - era,assim, possível falá-la a tudo que escuta.
O rabisco
de formas azuis,
que molhado,
derrete. Feito as peças que desabam do corpo da vigia, temerosa de encontrar ainda outras palavras que reflitam ainda mais de dentro - mais que o nome dela.
domingo, 10 de junho de 2012
Canto de todas as partes
A voz atando palavras para compor seu canto - estando, assim, à procura do soado do mundo - palavras de todas as línguas, que de obra-prima despertassem um coro humano de "nossas".
- Nossas.
Exclamação arranhando tudo o que há de humano - dinamites, castelos, carros, coleções, pessoas - criando fincas para o canto.
Um canto transnacional.
domingo, 3 de junho de 2012
Cotidiano
O dia feito peça,
à imagem do origami:
Dobre-o nos verdadeiros anseios
- dorminhocos ao fim da tarde,
exaustos.
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