domingo, 16 de dezembro de 2012

Tudo há de ter um fim

já
antes que logo.

depois
antes de acabar.

amor
já ao acabar da dança.
 
recordação
logo depois dos gestos.



sábado, 8 de dezembro de 2012

Mundo

segue uma letra
depois de uma letra
e se há o mundo. de qualquer lugar.
O mundo é uma caligrafia.

Destino Navegável

Meus olhos testemunhavam-no. Viam-no mais que inteiro: viam seus reflexos, seus mormaços.

Ele se sentou à minha frente, de olhos grandes e existentes.
Fingíamos que o mundo todo habitava aquela mesma tarde, aquele espaço entre nós: aquele todo era a sós.

- Distante?
- Ainda mais perto.
- Perto?
- Do destino.

O mundo aplaudia, só com o início da noite, como por toda a eternidade, os abalos que causam tal encostar de frente de joelhos e olhos. Abalos que não se desperdiçam.

- Assim?
- Não.
- Não é destino escrito, prescrito?
- Destino navegável.
- Navegável?
- Há sempre caminhos, de qualquer jeito, em mim, navegável.
- Sou barco?
- É pedaço que leva a mim no houver, quase até secar.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O mar de Paraty

O mar não é água.

O mar é onda o tempo todo.

O cuspe é água.

A chuva é água.

O mar se enche na beira,

quase se fazendo ponta,

e calado cai onda.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Dúvida

di-vi-dir
entre ver|ti|cal e
ho-ri-zon-te.
noite que sobe
e cai. ainda (a)clara.

domingo, 11 de novembro de 2012

Data

O mundo me deu uma data
(é a única que sei)
A minha última data é os outros que saberão.


Mas todos os dias são data,
pra qualquer um
ou alguém.
Pra quem sabe a data
ou pra quem só vive nela.
E data mais importante
nem sempre é a de nascimento,
mas a do encontro.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Referencial

Aí há tantas coisas que brincam de outras.

Movimento que é parado.
Elevadores que são chão.
Retrato que é miragem.
Água que é sede.
Palavra que é previsão.

Mundo que é não existe.




A falta do amor nas coisas

Eles deveriam desatar os dedos. Um, sabia-se, não cabia mais no outro. 

Ele sentia-se restante, um resto da cidade - que não refaz absolutamente nada, nem o mesmo caminho ou frase. Foi preciso,  então, alguma vez, admitir o que se é: homem incapaz.
O outro saíra. investigando os sãos, a multidão dos que creem na vida, para compartilhar das certezas.

Ele ficou à janela. 
Depois arrastou os pés até a cozinha, mas  as coisas não se mexiam, as coisas não são vida. Só havia o que é mudo, parado, incompreensível porque não fala. Tudo era o seu corpo, que estava silencioso, quase não funcionando. 
Deitou-se no sofá, aconchegou-se em suas cores, e pôs saudade.
Entregou saudade até na falta de juízo, de saudar os botões que ainda hão de se levar ao chão, como todos os amores.

Anoiteceu e não era mentira. a noite e eles. 
Eles quase sem olhos para o seguinte.

domingo, 28 de outubro de 2012

Horas

O escândalo da manhã 
é de que as horas não existem.
Horas não hão.
As horas não são.
Não há resposta.

Não há resposta sem o desconcerto
das coisas que não as seguem
- por quem ninguém ora.

sábado, 20 de outubro de 2012

Ilusão

fui quase muitas situações.

um quase descartável.

quase que nunca acontecia.


fico ainda completa

e quase.

porque realiza em mim

uma parte:

a ilusão.







sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma imagem da Saudade

estão as luzes da avenida. vorazes.
são estátuas da noite.

vêem, intermitentemente,
o que passa
e o que os conduz.

sempre leva à dúvida,
a nós e às lâmpadas,
se o que passa,
às vezes,
só atravessa -
dando sempre para ver,
no outro lado.

O que dá a distância
é quando as luzes apagam.









 









domingo, 7 de outubro de 2012

Outubro

As nuvens de Outubro

Não são as nuvens de outros meses.

Há tempos elas viajam até o Atlântico.

Há caminhos. procuram o Ocidente.

Desfiando a primavera. Suas sombras.

Levando o céu de lugar.







sábado, 29 de setembro de 2012

Ano

O ano,
um ano,
é um mês de cada vez,
um mês uma vez só.

O ano é
os dias não esquecidos,
passagem da meia-noite
de cada um.

O ano,
um tempo em dança,
dançando de um outro mundo
para ainda outro mundo.







sábado, 22 de setembro de 2012

Fósforo


O corpo gasta.

Olhe só os calos.

Olhe só os quantos calores nos tiram a alma.

Os cabelos que caem,
o corpo vai diminuindo.

A gente vai perdendo, sem até perceber.

domingo, 16 de setembro de 2012

De todos os lados

Diante da rua,
olho pra todos os lados:
pra fora
pro céu
pra dentro
pro subsolo.

E de dentro brota fora:
de mim se ouvem palavras,
de fora vejo cores,
da casa nascem os homens
que povoam o mundo.

Dele saem pensamentos
que são ideias ou paixões,
que, mesmo em dias nublados,
não cansam.


Já do alto ao baixo
é a chuva ou é o sol
ou ainda é a mão da criança
que conta com o sossego do pai.