Eu me encanto de navios cargueiros.
gosto das suas cores longe,
do seu peso,
da sua quase anônima gente
(tripulação que se sabe viva porque está no mar)
gosto da distância dos seus afazeres,
das crianças que, como eu, desejam-os.
da sensação que me fazem
(como os regentes e as baleias)
das linhas que criam o horizonte
divergindo Mar de Oceano
e sua luz, claridade, acesa, à noite.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
O medo
O medo perdeu-se
da noite e do dia.
Ficou o vazio do medo:
espaço com cheiro falso de brisa,
à espera de todas as coisas.
da noite e do dia.
Ficou o vazio do medo:
espaço com cheiro falso de brisa,
à espera de todas as coisas.
A casa
a casa é janela
é porta
é morada.
a casa é feita de gente
gente que constroi
gente que mora
pessoa que sonha com outra coisa
pessoa que sonha em outra casa.
a casa é exausta das humanidades
e a riem, a riem porque é acúmulo.
mal sabem que é passagem de quem sempre morre.
é porta
é morada.
a casa é feita de gente
gente que constroi
gente que mora
pessoa que sonha com outra coisa
pessoa que sonha em outra casa.
a casa é exausta das humanidades
e a riem, a riem porque é acúmulo.
mal sabem que é passagem de quem sempre morre.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Meio
era como estar em uma escada
temendo
o topo e o baixo
em algum degrau
contagiando os transeuntes
só parados no chão,
sem a proporção do meio
Saudade
falamos de tardes,
de ditados,
de horas.
mas os distintivos não estancam o coração.
a vontade existe,
a imagem é aquele significado sem palavras.
a questão é que
tardes,
ditados,
horas
não resolvem nada.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Tudo há de ter um fim
já
antes que logo.
depois
antes de acabar.
amor
já ao acabar da dança.
recordação
logo depois dos gestos.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Mundo
segue uma letra
depois de uma letra
e se há o mundo. de qualquer lugar.
O mundo é uma caligrafia.
depois de uma letra
e se há o mundo. de qualquer lugar.
O mundo é uma caligrafia.
Destino Navegável
Meus olhos testemunhavam-no. Viam-no mais que inteiro: viam seus reflexos, seus mormaços.
Ele se sentou à minha frente, de olhos grandes e existentes.
Fingíamos que o mundo todo habitava aquela mesma tarde, aquele espaço entre nós: aquele todo era a sós.
- Distante?
- Ainda mais perto.
- Perto?
- Do destino.
O mundo aplaudia, só com o início da noite, como por toda a eternidade, os abalos que causam tal encostar de frente de joelhos e olhos. Abalos que não se desperdiçam.
- Assim?
- Não.
- Não é destino escrito, prescrito?
- Destino navegável.
- Navegável?
- Há sempre caminhos, de qualquer jeito, em mim, navegável.
- Sou barco?
- É pedaço que leva a mim no houver, quase até secar.
Ele se sentou à minha frente, de olhos grandes e existentes.
Fingíamos que o mundo todo habitava aquela mesma tarde, aquele espaço entre nós: aquele todo era a sós.
- Distante?
- Ainda mais perto.
- Perto?
- Do destino.
O mundo aplaudia, só com o início da noite, como por toda a eternidade, os abalos que causam tal encostar de frente de joelhos e olhos. Abalos que não se desperdiçam.
- Assim?
- Não.
- Não é destino escrito, prescrito?
- Destino navegável.
- Navegável?
- Há sempre caminhos, de qualquer jeito, em mim, navegável.
- Sou barco?
- É pedaço que leva a mim no houver, quase até secar.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
O mar de Paraty
O mar não é água.
O mar é onda o tempo todo.
O cuspe é água.
A chuva é água.
O mar se enche na beira,
quase se fazendo ponta,
e calado cai onda.
O mar é onda o tempo todo.
O cuspe é água.
A chuva é água.
O mar se enche na beira,
quase se fazendo ponta,
e calado cai onda.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
domingo, 11 de novembro de 2012
Data
O mundo me deu uma data
(é a única que sei)
A minha última data é os outros que saberão.
Mas todos os dias são data,
pra qualquer um
ou alguém.
Pra quem sabe a data
ou pra quem só vive nela.
E data mais importante
nem sempre é a de nascimento,
mas a do encontro.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Referencial
Aí há tantas coisas que brincam de outras.
Movimento que é parado.
Elevadores que são chão.
Retrato que é miragem.
Água que é sede.
Palavra que é previsão.
Mundo que é não existe.
Movimento que é parado.
Elevadores que são chão.
Retrato que é miragem.
Água que é sede.
Palavra que é previsão.
Mundo que é não existe.
A falta do amor nas coisas
Eles deveriam desatar os dedos. Um, sabia-se, não cabia mais no outro.
Ele sentia-se restante, um resto da cidade - que não refaz absolutamente nada, nem o mesmo caminho ou frase. Foi preciso, então, alguma vez, admitir o que se é: homem incapaz.
O outro saíra. investigando os sãos, a multidão dos que creem na vida, para compartilhar das certezas.
Ele ficou à janela.
Depois arrastou os pés até a cozinha, mas as coisas não se mexiam, as coisas não são vida. Só havia o que é mudo, parado, incompreensível porque não fala. Tudo era o seu corpo, que estava silencioso, quase não funcionando.
Deitou-se no sofá, aconchegou-se em suas cores, e pôs saudade.
Entregou saudade até na falta de juízo, de saudar os botões que ainda hão de se levar ao chão, como todos os amores.
Anoiteceu e não era mentira. a noite e eles.
Eles quase sem olhos para o seguinte.
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