Alugou um jantar
em horário modesto
- perspicaz de nuvem -
e ofendeu-se.
Ofendeu.
Não havia gastronomia.
Havia uma vitrine.
de onde também sentiu compaixão
do sintagma afogado na jardineira,
na complexa incompreensão da cidade.
de onde também sentiu compaixão
diante do pavor
do auto-conhecimento abstrato.
de onde também sentiu compaixão
das lousas que sempre se apagam.
de onde também sentiu compaixão
do nada que permanece.
Da pura loucura:
reprodução de um mesmo sonho diversas de outras vezes.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Assim: metaforizar
Por um segundo acredita-se no impossível até duas vezes.
Agora ela já encontrava a beleza de seus próprios olhos, negros, abertos, bem abertos, quase que delineados naturalmente. Atráves desses olhos, negros e exatamente conchas de mar, a mulher não destruiu a desingularização do mundo.
Sua ânsia de ser sã, em uma realidade incondicionável, era o ângulo reto da sua alma.
Só delimitou que o peito dele era inflado por fogo, perturbador do perambular do sangue, da fraqueza, do gesto, dos cílios que se fechavam juntamente aos dela.
Só delimitou que o peito dele era inflado por fogo, perturbador do perambular do sangue, da fraqueza, do gesto, dos cílios que se fechavam juntamente aos dela.
Feito neblina dissipando, o amor foi rascunho... diálogos inacabáveis, incabíveis, quase sem voz.
Mas assim, ainda mulher, descalça, à procura de alguém, ainda nesse domingo, que estivesse na cama, com os braços acima do pescoço, o cabelo desgrenhado, no azulado cinza das frestas da janela, com a temperatura do corpo acima dos 36 graus. Assim ela terá acertado na forma de pensar.
Cachorros
Os cachorros
Os cachorros latem
Os cachorros latem intensamente
Por quê?
Os cachorros latem intensamente
Porque
Chafurdam de inveja
De outros cachorros:
Aqueles do, outro, lado:
Livres,
Assalariados dublês da distinção do mundo.
Os cachorros latem
Os cachorros latem intensamente
Por quê?
Os cachorros latem intensamente
Porque
Chafurdam de inveja
De outros cachorros:
Aqueles do, outro, lado:
Livres,
Assalariados dublês da distinção do mundo.
domingo, 29 de maio de 2011
Carlos Inevitável
Semelhante disperso
É sem vistagem no mundo.
Carlos Inevitável.
Das tentativas de auto-exílio.
Pois, nele debatiam-se inteiros:
Lajedo, trilogia, todos os conhecíveis...
Carlos Ímã
De existência fatal, irrestível.
Sua prisão era substancial:
tudo o que habita.
Sem feito fetiche/feitiço para si.
É sem vistagem no mundo.
Carlos Inevitável.
Das tentativas de auto-exílio.
Pois, nele debatiam-se inteiros:
Lajedo, trilogia, todos os conhecíveis...
Carlos Ímã
De existência fatal, irrestível.
Sua prisão era substancial:
tudo o que habita.
Sem feito fetiche/feitiço para si.
sábado, 21 de maio de 2011
Coisa não citadina
Ana destrambelhou-se no insólito congestionamento das quatro da tarde. Ela observava uma velha, toda aparecida, na garagem de sua casa. A senhorinha - de cabelos lisos, presos sem desvelo, vestida de azul e verde - varria sua calçada.
A imagem era estupefata: a senhora, rente à grade do portão, dispôs a vassoura e os braços, como objetos excomungados, para fora e varreu a calçada, cheia de movimentos truncados, por entre os vãos. Seu propósito não permeava nem metade do objetivo.
Era incrível e estarrecedor. Parecia mulher fugitiva do mundo, condenada pela própria casa, justa ao próprio corpo, escrava do processo da liberdade das leis machistas – ironia do próprio sistema – e da idade, esquecida até dos dialetos normais.
Ainda assim, foi possível reparar em seu último ato: a senhora empurrou o lixo recolhido para a calçada vizinha. O esforço, então, era de contaminar o alheio? Meio de inversão de seus hábitos domiciliares?
No cotidiano do dia seguinte, todavia, Ana não citou sujeira na garagem e no portão da velha, creu que ele dispersou-se, desde a tarde anterior, pelos destinos de outros crédulos e sãos do drama e da realidade.
domingo, 15 de maio de 2011
Ex amor
O ex-amor,
às vezes,
permite cateter e urbanismos...
Do ex-amor. O cultivo
partilha de alguma falta de consciência:
componente fetiche
das construções particulares.
A ausência do ex-amor
é recomendação não vivível, pedinte de palavras,
que vista,
se dilui
com sabor familiar.
às vezes,
permite cateter e urbanismos...
Do ex-amor. O cultivo
partilha de alguma falta de consciência:
componente fetiche
das construções particulares.
A ausência do ex-amor
é recomendação não vivível, pedinte de palavras,
que vista,
se dilui
com sabor familiar.
sábado, 14 de maio de 2011
Das descobertas
Em meio ao devaneio da cidade, uma criança, sem consciência do caminho e da importância do passo, caminhava com o pai. O fim era o ineditismo do hospital e das convenções do corpo.
Presentes no consultório, o menino esperava sua vez. As dores de cabeça eram insuportáveis, já na curta extensão de Idalício e, futuramente, maior seriam: a dor se alongaria por mais espaço. Todavia, essa já era preocupação secundária, o garoto se voltava, fazia semanas, à idéia que o atormentava: o eletroencefalograma. Ao questionar o pai, obteve a explicação de que o exame seria capaz de desenhar sua cabecinha por dentro e, assim, descobririam o porquê de tanta dor. Idalício entrou em estado de desespero, afinal, seria revelado tudo o que não se pode saber. Aos pais seriam revelados seus pecados!
Deitado na maca branca, fina e indiferente, seus seis anos não ocupavam muito espaço, ainda mais todo encolhido. A médica, talvez, de alguma forma, ausente, fixava de maneira quase simétrica os eletrodos e tudo já ficava com uma nova cor para Idalício - um verde pálido de quem talvez não enxerga. O menino, tenso, esperava pelo momento da mais alta desgraça: pior que a mão no formigueiro em dia de ano novo. Iriam descobrir da sua tentativa de fuga, suas descobertas do sexo. Mas que desespero, meu Deus! Desespero recoberto de coragem que o menino fazia de escudo, feito mocinho de 10 anos.
Durante o exame, silêncio absoluto.
Já de saída e de volta para casa, estranhamente nada se modificou: seus pais nem insinuaram de seus segredos. Mas o menino não se apaziguava, a angústia de estar preso àquele exame estranho, o atormentava. Até que os resultados chegaram e lhe foram mostrados apenas riscos que subiam e desciam e tudo lhe parecia muito estranho, seu por dentro era muito diferente, coisas que ele não sabia identificar. Aquilo o assustou mais do que se seus segredos fossem revelados, mas ainda preferiu que assim fosse. Tudo estava em paz novamente, já podia retornar à sua rotina de 10 horas.
Já de todo esforço, nada valeu: o exame não resultou em nada, nada foi detectado. Porém, Idalício se deu conta, já aos seus 6 anos, de que por dentro não se sabe tudo o que há e o que há de nós não se reflete em luzes e eletricidade.
domingo, 8 de maio de 2011
Mirar
Em meio ao escarcéu
da Mata de São Lobo,
um único menino
mirava a borboleta.
E ele a feriu
sem estilingue na mão.
da Mata de São Lobo,
um único menino
mirava a borboleta.
E ele a feriu
sem estilingue na mão.
Fragmento
Aquele pedaço teu
É o meu laço esquerdo
que mede passo
- modo moço doente -
intenso de passado,
quando te arranco e rasgo.
Tu és meu
fora das horas definidas:
pedaço de março,
dobro de mim.
água que dói.
É o meu laço esquerdo
que mede passo
- modo moço doente -
intenso de passado,
quando te arranco e rasgo.
Tu és meu
fora das horas definidas:
pedaço de março,
dobro de mim.
água que dói.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Pensamento Noturno
Esperando o sono...
Agora, talvez, outro sono, que não o meu, esteja no campo procurando aquários e outras coisas utéis.
Esperando o meu sono.
Meu sono está no quarto ao lado,
mas como resgatá-lo?
no escuro?
Agora, talvez, outro sono, que não o meu, esteja no campo procurando aquários e outras coisas utéis.
Esperando o meu sono.
Meu sono está no quarto ao lado,
mas como resgatá-lo?
no escuro?
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Ombros à tarde
A dança entrelaça o corpo feito o sexo.
Desembaçando o vidro que se é,
em par ou solo,
até cachorro manco o é.
Enquanto no ar, estão os passageiros internacionais,
fugitivos do centro do corpo e do ralo.
Desembaçando o vidro que se é,
em par ou solo,
até cachorro manco o é.
Enquanto no ar, estão os passageiros internacionais,
fugitivos do centro do corpo e do ralo.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Intermitência da fraca protagonista
Ela achava bonitinho o cotidiano: procurar nos folhetos ofertas para os filhos, os vestidos de menina, a comodidade do sol batendo exato no corredor, a tarde de sábado, exercícios de outra língua.
Apesar de exagerada na utilização de palavras no diminutivo, ela não se sentia menos: ela se sentia só, uma falta extrema do que fazer com a sucessão dos dias cheios de vento de quase não mais madrugada: sentida por toda coisa.
Assim admitiu vontade e castigou-se. Era o momento de aceitar que as frases lidas, a geografia, os bares, o clima, o apartamento, a comida feita se entupiam de lembranças e medo. Será não ser verdade? E o que fazer com isso, se o mundo permanece dentro?
Silenciou-se a questionar as manifestações corporais. Ela reconhecia a espécie de outro acúmulo dentro de si. É o resultado de uma curta via que já a inflama até piscar longamente os olhos. É a culpa e o exagero, talvez o desejo de condizer com o embate sem razão. Pena nunca poder ver a vista ao longe.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Aquele definitivo resquício
Tudo o que o envolvia era um antes e um depois e eu ainda nem desconfiava disso. E, por muito tempo, permaneci assim: sem saber de nada, hipnotizada não sei se pela beleza ou pela feiúra, mas em algum instante, ele se tornou definitivamente belo!
Não conseguia compreender como ele podia ser assim, naturalmente, tão especial da primeira vez, no ato de estréia. Pensava então por que eu, afinal, tinha de ser olhada uma segunda vez, deixando de ser inédita. O meu especial, por acaso, sofria de hepatite, era precário? Eu acreditava ser especial, mas ele estava anos luz de mim: da maneira de me olhar fixamente - se é que seus olhos se fixavam em mim ou no que ele imaginava que eu era – até a maneira de dizer o quanto eu estava quente, enquanto, na realidade, eu estava fria. É o que todos eles dizem. Mas, talvez, só ele percebesse o meu desejo em encontrar alguém que me dissesse que eu estava quente, pois mesmo sendo mentira: eu queria parecer outra pessoa.
Ele conhecia o mundo e, para mim, o mundo é o que existe. E a presença desse moço era tão contínua que, repentinamente, eu acreditava em Deus e em toda a construção do universo: eterno e largo como o sorriso dele. Jamais ele iria a Ibiza ou Zaragoza comigo. Mas ele foi, em mim, no que me é mais secular: me moldou lírica. Fazia anos que não era composição assim intensa, daquelas que a gente soma as notas do bolero, da vinheta da TV e do barulho da gaveta. Simplesmente era complexo aceitar que aqueles dentes largos e gengivas à mostra e aquela barba, feita no mesmo dia, se registrassem densamente na minha experiência do que eu não entendo e gosto muito. Às vezes, até penso, aliás acredito, que ele foi meu primeiro desenho, meu primeiro pôr-do-sol, traçado com dez riscos, minha primeira vontade.
E eu perguntaria, sim, eu perguntaria. Gostaria de ter instaurado um diálogo meu, que partisse de mim. Qualquer coisa que fizesse das palavras dele, minhas.
E, além disso, restava ainda o corpo: a maneira como ele não me tocava, fazia com que eu pensasse no singular de toda uma multidão de gente. E, afinal, em estado de descoberta, ele era o meu singular do mundo inteiro - a minha falta de morfema que ampliava todo e qualquer sentido - desse mundo mesmo que existe.
Bastava olhá-lo, clandestinamente, para suspeitar de que o itinerário do ônibus o continha mais do eu. E, de maneira infantil, eu desdenhava ironicamente de todos os letreiros cor de néon da grande cidade.
E de repente, ainda que eu não sentisse dor, ele foi embora: desinteresse unilateral.
Depois disso, nem sei mais. Já desgastei o olhar daquela foto, cujos caminhos desdobra e me convida subitamente à dança de não sei qual corpo, já que o meu perdi. Hoje sou completa ausência de uma lembrança e ele, mera vida que segue, contudo, ainda em mim permanece, não passa, não vai, não corre, não foge, não esquece.
Definitivamente eu sabia, ele não era hora minha. A angústia era enorme: ele nunca seria definitivamente meu. Será, no máximo, o secreto nos meus pedaços de mundo particular, meu São Francisco Imenso, que estarão em qualquer parte, aonde quer que cheguemos. Em nós, haverá espaço até para o esquecer. Já de nós, que nunca nasceu, restará a expectativa que não brindou a champagne e não cantou os parabéns: Eu sei, ele vai me render uma vida inteira! Até chegar o meu dia de loucura, porque aí eu inverto o passo!
terça-feira, 29 de março de 2011
Previsibilidade
causa amor grave
distinguir previsivelmente.
[é a certeza da falta até da tontura.]
recheada de teatro e ineditismo:
ambíguos e contraditórios, causais e inutéis
já nas palavras frações.
o amor agudo
corrompe até o estardalhaço.
ele não acredita em signo,
entendimento,
nada.
distinguir previsivelmente.
[é a certeza da falta até da tontura.]
recheada de teatro e ineditismo:
ambíguos e contraditórios, causais e inutéis
já nas palavras frações.
o amor agudo
corrompe até o estardalhaço.
ele não acredita em signo,
entendimento,
nada.
Assinar:
Postagens (Atom)