sábado, 25 de agosto de 2012

A Lua do Dia

A Lua e mais três estrelas 
me seguem -
não fogem dos meus olhos,
descaradas.
Apontam para o teto de meu corpo.
E ao amanhecer,
utopiam o dia,
brincando de minhas sombras.

sábado, 18 de agosto de 2012

As pedras e o amor

À Fernanda Simões Lopes


As pedras,
é possível uni-las, as pedrinhas, em um monte.
O amor não.

O amor que tem
suas cores subterrâneo ou
destino
(como as pedras)
mas que não se une por vontade alheia,
às mãos dos homens,
o amor é leve a estas rédeas.

domingo, 12 de agosto de 2012

Palavras Individuais

- Jasmins, jardins, jabutis.

Ela recitava rimas. 
Palavras de rimas que deveriam crescer nela:

-  Silêncio, beco, dentro.

(Ainda que o cultivado silêncio partisse em fala.)

- Dito, indefinido, improvável.

- Vento, varre, catavento.

- De, mim, para, (qual), fim? 


sábado, 4 de agosto de 2012

Poema

Poema é desperdício,
onda de palavra interrompendo palavra,
de tanto. 
 
Poemas apagam.

Poemas são feitos para extinção,
pois únicos.





domingo, 29 de julho de 2012

Indiferença às coisas

Das coisas que se joga fora - que utilidade têm?

Se não há transfusão dos sentimentos
E os objetos já nascem mortos.

Se caem e não (se) ferem.

Se o que nos resta de mais importante nas mãos
são os dedos?









domingo, 22 de julho de 2012

Despertar

"Já amanheceram os seus dedos ao som do piano." - era suspendendo os silêncios que recebíamos as auroras.
Ao nascer, definitiva, a manhã, ele retorna - exausto das grandes composições e dos sentimentos intensos e sem finitude - à procura do restante sonho, onde eu - sei - estive, e da realidade: em que meu corpo compreende toda a temperatura necessária e os olhos fechados.
Ali, em pensamento, aguardando seus passos subirem as escadas, fingindo inédito, firmo a ideia de que as auroras o celebram tanto quanto eu: são as luzes do sol.

Mapa - talvez de uma certa saudade


As ruas permanecem sempre,
Nos mesmos lugares,
Pilotando gente.

A gente, às vezes, permanece, sempre,
Em um mesmo endereço.
Contando as mesmas
Chuvas e portas.
Bem crendo na previsibilidade.

Porém, ainda resta gente, que conhece
os diversos itinerários,
Mas que, também, às vezes, para, estático.

(Diante daquela mesma porta sem saída)















                                     

sábado, 7 de julho de 2012

Frescor

Com a comida entre a boca e os dentes - soprou-lhe uma sensação: ser esposa. Via-se num quarto de luz acesa, com as janelas abertas. 
Janelas transmissoras do vento, que terminava por tomar alguma parte dela: esposa onde o vento varre as suas partes.

Imaginando-se esposa só, apreciando - tal como janeiro - a dimensão das paredes brancas, o eco que ali cabia, o descanso de uma noite.

E mulher que sabe que há quem, outro, que dela aguarda o que dela - ela deixa fugir, no vento. 

Era o melhor dos gostos rápidos.

sábado, 30 de junho de 2012

Marinho

Amanheceu marejado. Estivera, em sonho, no oceano.

Nele, porém, o vestígio deste sonho permanece, sentia até que alguma parte sua - sem inchaço ou dores – salgava. Ele – tão conhecido, dito e sabido bruto – sonhou pela primeira vez com o oceano e que lá esteve a acalmar transatlânticos, a caminhar os olhos aos navios que soavam tristezas, doloridos de aportar na terra.

Martin não transmitia, não permitia sensibilidades, mas o oceano o arrebatou. A água infiltrara-se nele como se nunca houvesse sentido sede. E o mar que em si nascia não o autorizava a seguir o mesmo. Ele - que jamais distinguira a temperatura do café, que jamais arquivara suas fotografias em álbuns e de quem não se reconhecera registro de que pronunciasse mais de dois adjetivos em uma mesma conversa - este homem, agora, após o espasmo do seu sonho, percebeu o oceano em suas mãos: as águas despencando ou nas candeias a refletir seus traços, nunca vistos tão perto, tão calmos.

Às vezes, detinha-se sentado, a imitar o mar, reconhecendo as movimentações internas – até então invistas. Martin, então, ofereceu oferendas – em segredo – à Iemanjá. Tornou-se devoto de sua própria mudança. Seus novos hábitos prosperavam! Sua casa solitária se espantava. Ele não escondia mais, havia permissão para todos os lados de si: apegou-se às mãos, passou a escrever com os dedos canhotos. Seu corpo desmanchou a ideia de que é noite antes de dia e dia depois de noite – era o oceano no momento de dormir, era água.

Agora ele está água.

Transparente a quaisquer dos olhos.

domingo, 24 de junho de 2012

Lento

Vi-me. Impossível
de refletir na contemporaneidade.
Na metrópole.
Nos corredores. em horário de pico,
é impossível refletir sobre os ainda corredores 
e algo mais que se veja, que se queira.
Congestionam-se, dentro de mim -
talvez pela vida inteira -
pensamentos.

sábado, 16 de junho de 2012

O rabisco

Era belo - à letra de mão - o nome dela. Belíssimo ainda mais seria se vindo nome fosse dos dedos dela, pensou. 
Era uma experiência - que ela ficou a vigiar: 
o rabisco: 
aquelas letras que diziam outra mulher, que significavam existência - melhor que fotografias e segredos, porque as letras causam voz - era,assim, possível falá-la a tudo que escuta. 

O rabisco 
de formas azuis, 
que molhado, 
derrete. Feito as peças que desabam do corpo da vigia, temerosa de encontrar ainda outras palavras que reflitam ainda mais de dentro - mais que o nome dela.    


domingo, 10 de junho de 2012

Canto de todas as partes

A voz atando palavras para compor seu canto - estando, assim, à procura do soado do mundo - palavras de todas as línguas, que de obra-prima despertassem um coro humano de "nossas".

- Nossas. 

Exclamação arranhando tudo o que há de humano - dinamites, castelos, carros, coleções, pessoas - criando fincas para o canto.
 

Um canto transnacional.
 

domingo, 3 de junho de 2012

Cotidiano


O dia feito peça,

à imagem do origami:

Dobre-o nos verdadeiros anseios

- dorminhocos ao fim da tarde,

exaustos.

domingo, 27 de maio de 2012

Fotografia Individual

Que eu fosse de outro lugar.
Desses, poucos,

Lugares.

Sendo menos pouco
Do que estes lugares raros.
Seria o ineditismo 
que nunca se inaugura.






Os corpos da eterna meia-noite

Incometiam em outras horas. 

Era - diante deles - sempre meia-noite naquele meio-dia.
Viam a meia-noite dos olhos - em sol pleno. Aí: seus corpos só sabiam se tatear à busca da noite azul que se encobre, se instalando indefinida.
E já em falso temor do amanhecer - com o real pavor de que florescesse a luz, que o real despertasse - eles desperdiçavam olhares de não mais caber naquele beco. Atreviam palavras originais - palavras de noite e de aurora - para desmemorar o fim.
E depois -  já quietos -  abalavam-se no mesmo ritmo, similares: corpos: dois corpos. 
Corpos que liberavam imensidão, feito o topo do precipício.
E cansados jamais solicitavam a aurora, a claridade ofuscava os olhos já tendenciosos ao par.