sábado, 23 de fevereiro de 2013

saudadasse

saudei a saudade
salvei-a de ir embora
porque pedi que ficasse
e enchesse meu peito,
abrisse meus olhos
para que eu saudasse,
saudadasse,
sem mais só.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O corpo de fora

se é assim, sem jeito,
que a gente cresce.
por que é que os cabelos nascem retos?
o corpo desfaz o de dentro?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O peixe

Ele deveria me deixar olhá-lo enquanto ele olha os peixes.

Impressiono-me do tanto pra que o corpo foi feito. por isso, ele me deveria deixar vê-lo. Não como ele olha para o peixe, com enigma, mas com afinco. Feito como o corpo foi feito, sem escamas.

Se me permitisse olhá-lo enquanto se imaginasse peixe, eu bateria - por dentro - palmas, pois se imagina sendo coisa.

(Eu já me imaginei ladeira, pra ver correr o alto).

Se eu pudesse olhá-lo como sempre, com os vasilhames, aquários de dentro, porque agora olha o peixe.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Pertinha

a noite há
agora
pertinha da  gente.

sábado, 26 de janeiro de 2013

De sempre fazer

os braços não podem ficar presos ao corpo.
devem partir
ao enlaço

das tardes.

quando acontece dos pés

sem justificativa.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Dia

podia
um dia
assim por dentro
o dia
desfazer a minha agonia
na hora do pôr do sol?

sábado, 12 de janeiro de 2013

afísico

É sentimento.

Não é fome.
          casamento.
          festa.
          aluguel.




Não há sólido que o resolva.

sábado, 5 de janeiro de 2013

sentir

sinto muito
pelo o que sinto. muito.
tanto que não esqueço.

sinto muito
de sentir
como se houvesse apenas
mares,
horizontes,
memória
dentro de mim.

sinto muito,
amor,
inexplicável.

sinto pouco pelos outros
porque não cabe tudo em mim.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Navios

Eu me encanto de navios cargueiros.

gosto das suas cores longe,
do seu peso,
da sua quase anônima gente
(tripulação que se sabe viva porque está no mar)

gosto da distância dos seus afazeres,
das crianças que, como eu, desejam-os.
da sensação que me fazem
(como os regentes e as baleias)
das linhas que criam o horizonte
divergindo Mar de Oceano
e sua luz, claridade, acesa, à noite.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O medo

O medo perdeu-se
da noite e do dia.

Ficou o vazio do medo:

espaço com cheiro falso de brisa,
à espera de todas as coisas.

TV

a tv
é duas sílabas
turvo.

Definido

tecer laços
é criar por rompê-los
com a morte
ou com as tendências
das vontades.

A casa

a casa é janela
é porta
é morada.
a casa é feita de gente
gente que constroi
gente que mora
pessoa que sonha com outra coisa
pessoa que sonha em outra casa.
a casa é exausta das humanidades
e a riem, a riem porque é acúmulo.

mal sabem que é passagem de quem sempre morre.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Meio

era como estar em uma escada

temendo

o topo e o baixo

em algum degrau 

contagiando os transeuntes 

só parados no chão,

sem a proporção do meio


Saudade


falamos de tardes,

de ditados,

de horas.

mas os distintivos não estancam o coração.

a vontade existe,

a imagem é aquele significado sem palavras.

a questão é que 

tardes,

ditados,

horas

não resolvem nada.