domingo, 26 de maio de 2013

Havana (coleção de fotos imaginárias)

existe

dentro da gente

um espaço de fim

tal como Havana

em começo de janeiro?



(onde o vento

mareja a tarde ...)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

a tarde

a tarde,

calorosa, passa

dando tchau às existências vespertinas:

pipa, vento, cheiro, fruta caindo

para guardar-se dentro do corpo

para estar em qualquer horário.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Árvores

uma árvore, é normal,

ao lado da outra

e senão

da parte só

árvore não tem:

a semente, do alto,

nasceu para o chão,

acompanhando todo espaço.




domingo, 12 de maio de 2013

Preguiçando

vou preguiçando

mas não passe
não vá, dia.

quero suspeitar do silêncio de todas as coisas,

das minúcias da tarde inútil.

sábado, 4 de maio de 2013

caminhos

no alto

as folhas direcionam o vento.

no chão

quem nos leva somos nós mesmos.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

na calçada não se encontram os caminhos

mas se seguindo segue sempre

dá para ver quase o labirinto.



segunda-feira, 29 de abril de 2013

tempo que vem

de pensar em alguma coisa do mundo

percebi tudo esvaindo

a memória não quer estar à lembrança

aquela está é a dentro dos ineditismos

sábado, 27 de abril de 2013

fantasia

de mim, não lembro um pedaço

que pensei meu

mas que era na verdade o que era a minha vontade.

aquele pedaço tem o ermo do mundo

como todas as coisas

que se fingem de nomes

e partem até domesticáveis

para seus cantos e destinos.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Construção

diz-se que uma construção está pronta quando acabada.
mas, há pouco, vi, entre seus vãos, a cor do céu:

a construção está pronta quando combina no mundo.

sábado, 13 de abril de 2013

chuva

o homem se demora na chuva, porque sabe que nada mais pode ser feito em seu corpo. Nele já estão os dentes, a pele manchada, o espirro, os dedos, os rins, os vestígios de sangue por todos os lados. por isso sabe o que cabe em si e também conhece que o corpo não pode transbordar a pele.

aquele homem na chuva está de sentir, por isso vai batendo os pés na água: o corpo quer tocá-la sã e transparente. mas o amor que carrega não sai, não parte - em longe ou em dois: não se soluciona em fim.
seu amor é olhar pra si e ver-se intermitentemente outro, o outro dos seus olhos. outro que o vê como neblina: breve.
seu amor resta só aos sentidos, é o seu corpo que não muda mais, que o leva a caminhos.

uma vez até esteve sentado em uma escadaria da Sé e sabia que sua cidade era lá, apenas aquela parte. onde, ainda outra uma vez, estiveram a iniciar os laços, as palavras que se prendem até formar presentes.

e só disso, deste encontro, seu corpo, as frases, a experiência restringiram o homem aos efeitos da chuva: a solidão das gotas frias.



sábado, 6 de abril de 2013

puído

sem formas

feito tecido puído

sem jeito

está.  aquela noite

e eu.

sabendo longe: sei lá,

onde foi que nos cansamos.







sábado, 16 de março de 2013

Pés

eu resolvi acompanhá-lo. meu passo doeria se o deixasse para trás.

o senhor pois que tentava estar na multidão, mas seu andar era lento, era o andar que a vida já sugeria. No metrô, cada um o ultrapassava. Segui-o em sua velocidade: o senhor passou a reger meu pés e o tempo do meu destino.
fui devagar contando os pés, olhando os outros que nos deixavam à vinda dos outros. díspares entre todos. no fim, na saída, ele se foi levando consigo, sem saída, toda a demora da existência.  

Desfile

eu passo em frente a muitas coisas

e dentro de mim nada fica.

sou imaculada às coisas:

ao molhado da chuva que vejo.
à sensação dos dedos
aos discípulos da gente.


domingo, 10 de março de 2013

Unilateral

eu senti tanto por mim
que fui me descolando
[em pedaços
porque o que eu sentia
[era meu
e não a verdade.

sábado, 2 de março de 2013

terço

o horário de pico
é o terço,

que os homens pregam
em marcha Ré.

é a reza
acordada entre eles,

presa em seus pescoços
e em dia comum
ou santo.