segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para dançar suspenso

O sol se põe de outra forma no Oriente
O dia parece saber se despedir exato.
E ontem mesmo, na beira do rio, adoeci do
anseio de proclamar todas as palavras existentes como fatos
e de, nos seus pés suspensos,
no fervor de seus pés suspensos, conhecer os diversos chãos.
Seus pés são os meus lajeiros de avistar o mundo.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Dia de feira

Era dia de feira. Nas quitandas e barracas do interior, era dia de comprar carne seca e caranguejo.
Acabou-se de saber da morte de Joana. A velha era vizinha da família da qual trata essa narrativa. Família de mãe, pai e muitos filhos, filhos que se espalhavam pelo quintal.
Joana acordou naquele sábado sem nem pensar como se sentia, porque não sentia nada e nem haveria solução se sentisse ou pensasse. O sol faz pouco nascera e ela sentou-se na cama e rezou comedidamente: agradeceu o dia e a passagem da noite. Fez seu café com leite e comeu um pedaço de bolo dormido e foi à feira: Joana vivia da pensão do marido. Era viúva também de ventre, ele morreu depois de seguidas tentativas. Era só. Na feira comprou pouco: camarão, carne seca, feijão e outros temperos, tudo em quantidade para uma semana. Chegando em casa, cansada, sentou-se na cozinha, dividiu os alimentos e escolheu o almoço: carne seca cozida e antes de comer, não se sabe como, morreu.
Aquela família descobriu a morte de Joana e sua carne e, sem argumentos à providência, milagraram. Então todos se reuniram na casa, dividindo, gratos, a carne cozida na panela de pressão. Mas uma das crianças daquela família, uma menina, Luiza, naquele mesmo dia, semelhou a obrigatoriedade com a morte, a menina comia obrigada a carne da morta. Ela sentia a morte em sua garganta. Neste instante, a fome era sua dignidade, salvação, imposição da sua vida. A fome era seu sinônimo de sobrevivência. Mas naquele dia, finalmente, tornando-se humanidade, ela nutriu a morte em si pela primeira vez.

domingo, 23 de janeiro de 2011

A grande avenida

Era janeiro cheio de sigilos: sem destino à praia ou ao oceano, a água caía inundando o mundo. Seu corpo já guardava tanta expressão que o lavou com a água gelada.
Não sei, mas acho que foi depois de escovar os dentes, ela estava sentada no sofá e eu a via do quarto. E é disso que tudo trata: da sua enxaqueca emocional. Internamente ela discutia suas relações mundanas como se fossem universais, e não, ela não poderia escapar do universo porque todos amam demais o mundo.
Na noite anterior, esteve na grande avenida - que tal como uma maquete: é previsível em todos os aspectos - não sei o que de lá trouxe, mas foi mais que o corpo e um dia: foi o absurdo. Suspeitava, então, se um instante insuficiente, um centímetro maior ou um plano ausente, retardariam as horas até essa cena.
Restava, então, só a espera da contagem regressiva, para que eu pudesse desvendar a causa daquele paralisamento citadino. Acredito ser uma saudade muito grande, perplexa da própria existência, tal como quem deseja tocar o peito enquanto esse ainda é quente.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Série catadores de lixo de Gramacho, Rj - Fotografia (?) VI



Aqui já não é mais cidade.
Aqui se está no qualquer lugar,
no existente qualquer lugar,
feito fratura fértil,
onde mesmo retos estamos tortos,
Munidos de uma invisível transparência indecente.


Foto de Vik Muniz.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Regava as flores vivas

Ela regava flores como se não pensasse em nada. A vida se apresentava à Hélia como a conhecida antecipação do inaugurável, do mesmo jeito que as imagens da TV.
Hélia suspeitava, silenciosamente, da forma inevitável como tudo é concebido: quando ela magicamente impedia uma singela transformação no mundo, na realidade, só possibilitava que o inevitável se concretizasse. Ela ouvia, então, a linearidade da existência rindo, gargalhando em baforadas na sua cara e mais forte suspeitava do quão ironicamente somos feitos. Assim, lavoura cresce ou não.
Ainda criança sofreu seu primeiro lapso, estava em frente à janela de alumínio, Hélia tinha 12 anos e se via deformada no reflexo: legítima. Hélia se via pequena, inútil e feroz.
Agora ela regava flores como se estivesse viva.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ewbank da Câmara (MG) - Fotografia V

Sua terra era ciranda de chão,
baile de esteiras,
cantiga de boi.
Mas aqueles seus olhos, mesmo que perambulassem o mundo inteiro,
ainda se voltariam ao céu.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Pensamento

A palavra pela metade é mixaria.

Serra Talhada - Fotografia IV


De onde não tem mar

As parte do chão estão na terra

- Frutos negros -

embalsamados de cheiro de caetês.



Corpo no próprio corpo.



Sua sombra é da terra,

é terra.





Foto por Jacqueline N. de Lima

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Conquista do Oeste

Ele me sobrevive
- me sendo sem querer -
refletindo os horizontes do mundo
tal como filmes de foto,
num estilo bem hollywoodiano.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A hora e vez da mosca aventureira de Juiz de Fora - fotografia III

Mosca aventureira a ser colorida
pousadinha em uma folha do mundo.
Seu nome, Marfarida.
Mosca limpa,
incômoda dos picolés gostosos.
Com traços de dislexia
A mosca está paradinha,
asas pesadas
sendo fotografada.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011